O novo trabalho e a nova rotina

Depois da nossa posse, ainda tivemos que esperar uma semana até começarmos, de fato, a trabalhar. Eu lembro de ficar ansiosa para começar logo, aquela sensação de novidade, novo trabalho, novos colegas… E, pensando nisso agora, concluo que o bom do MRE é isso: a renovação de tempos em tempos e a nova ansiedade de um novo local de trabalho, novos colegas, novas experiências.

Quando, finalmente, começamos, passamos, primeiramente, por um curso de formação. Não me lembro exatamente quanto tempo durou o curso, acredito que uma semana, mas já são quase 12 anos, então a memória as vezes pode falhar (o que é difícil, porque a minha é de elefante!).

Nesse curso, conhecemos mais sobre os assuntos internos do ministério, soubemos um pouco mais sobre o que esperar e ficamos, mais que tudo, ansiosos para saber a nossa lotação no final das “aulas”.

O Meteoro!!!

No útimo de dia de curso, descobrimos onde trabalharíamos. Eu fui originalmente lotada em uma divisão política, ou seja, muito mais trabalho para diplomatas e nada muito interessante para achans e ofchans.

Eu durei um dia na divisão! No primeiro dia, me colocaram sentada em uma mesa, com um computador e um telefone. Eu tinha uma colega dividindo a sala e cada diplomata da divisão na sua sala separada. Passei o dia sem ter basicamente nada para fazer. Nem o telefone tocou. Foram 8 horas sentada na frente do computador me questionando se ia sobreviver àquele trabalho parado. Ainda mais eu, a pessoa desde sempre ligada no 220.

No mesmo dia, falei com uma amiga que estava lotada na DAEx, uma divisão do Departamento de Administração, cheia de trabalho e loucura para os “chans”. Ela procurava uma divisão mais tranquila, e eu uma mais cheia de trabalho. No mesmo dia falamos com nossos chefes, que trocaram memorandos e, no dia seguinte, a troca estava feita: eu estava lotada na DAEx (Divisão de Acompanhamento e Coordenação Administrativa dos Postos no Exterior). E foi a melhor troca que eu poderia ter feito! A DAEx é uma das divisões mais interessantes para achans e ofchans!

Na DAEx, como o nome diz, cuidamos de tudo que diz respeito à administração dos postos no exterior. Enviamos recursos tanto mensais quanto extraordinários para tudo que é necessário para o bom funcionamento das representações: verbas que vão de pagamentos de aluguel a compra de materiais de escritório ou materiais permanentes. Além de pagamentos para quitações de contas, pagamentos de contratos de terceiros etc. Além de providenciar pagamentos, orientamos os postos sobre como proceder em questões administrativas, autorizamos (ou não) aluguéis de imóveis, compras de toda natureza, contratos, pagamentos. Basicamente, tudo que o posto precisa para sobreviver sai da DAEx. E é lá que estão os especialistas para coordenarem, de Brasília, o funcionamento de tudo.

Trabalhando como louca, mas feliz!

A rotina de trabalho na divisão sempre foi bem pesada. Nunca existiu um dia sem trabalho (a não ser que o sistema caísse, e a gente depende 100% de sistemas no MRE). Minha mesa sempre tinha coisas a serem pagas, resolvidas, analisadas, autorizadas. Todo dia chegava uma novidade, todo dia tinha um telefonema do exterior e todo dia a gente se sentia útil e importante na manutenção dessa malha enorme de postos que o Itamaraty possui.

Em semanas de pagamentos mensais, a carga de trabalho era ainda maior. Perdi as contas de quantas vezes saí do trabalho as 23h, a cabeça nem funcionando mais com tanto número, tanta autorização… Mas totalmente feliz por estar fazendo um trabalho importante e interessante.

A mesa era, ao mesmo tempo, cheia e trabalho e de coisinhas alegres

Trabalhar na DAEx, além de trazer o conhecimento do funcionamento de um posto sem, de fato, estar no exterior, me trouxe outras oportunidades incríveis. Uma delas foi ser professora em cursos de remoção (todo mundo que vai para o exterior precisa fazer um curso preparatório antes de partir) tanto de achans e ofchans quanto de diplomatas. No curso, eu ministrava GAP (Guia de Administração dos Postos), a bíblia da administração dos postos. E eu amava dar aulas nos cursos, porque era a oportunidade não apenas de fazer algo diferente dentro do MRE, mas de voltar a ser professora… E eu sempre amei dar aula. As aulas do curso me renderam excelentes experiências e, até hoje, quando chego nos postos, sempre tem um “ex-aluno” que lembra das minhas aulas.

Outra coisa incrível que a DAEx me proporcionou foi a experiência em abrir embaixadas pelo mundo. No tempo que trabalhei lá (entre 2009 e 2011), o Brasil estava expandindo sua relações diplomáticas e muitas representações foram abertas. E como abrir um posto é tarefa administrativa, as pessoas enviadas para essas missões eram praticamente todas da DAEx. Em 2 anos eu abri 3 embaixadas: St. John’s (Antígua e Barbuda), Roseau (Dominica) e Sarajevo (Bósnia & Herzegovina). Sobre a experiência de abrir embaixadas vou escrever com mais detalhes em outros posts (mesmo porque a primeira foi uma aventura!). Mas digo essas missões foram as mais importantes da minha carreira e me dão frutos até hoje.

Com meu Diogo e eu com o Primeiro-Ministro de Antígua e Barbuda em evento oficial

Com 2 anos de DAEx, construí um currículo que só me dá alegrias no MRE. O fato de ter trabalhado na DAEx, dado aula no curso de remoção e aberto 3 embaixadas me ajudou a ir para postos que eu gostaria de ir e me trouxe um convite para vir para Los Angeles. Portanto, sim, o trabalho que você realiza na Secretaria de Estado vai entrar no seu currículo e abrir portas para você pelo mundo.

A sintonia era tão grande que, várias vezes, íamos todos com a mesma cor de roupa (sem combinar!)… E, sim, gostávamos de pirulito azul!

Agora, o melhor da DAEx eram as pessoas. O time da divisão, na minha época, era incrível! Pessoas competentíssimas, divertidas, queridas… Amigos que até hoje me acompanham na vida e nas aventuras. Na nossa época, a DAEx era a divisão mais divertida do ministério! O dia-a-dia e as toneladas de trabalho ficavam mais leves com a animação e o astral das pessoas. Sempre achávamos hora de enfeitar a divisão com bandeirinhas e fazer festinha junina; fazíamos competição de decoração de Natal no fim do ano; comprávamos caixas de doces e espalhávamos pela divisão. O final do expediente sempre tinha música… O dia 31 de dezembro sempre foi o mais tenso da divisão, porque tínhamos que fechar o exercício zerando saldos e nunca sabíamos quando o trabalho ia acabar. Mas ninguém sofria com isso: já íamos de branco para, se precisar, já comemorar lá mesmo! (Nunca precisou, gente, no meio da tarde já estava todo mundo em casa! Mas era divertido ir de branco!). Além disso, ninguém ficava sozinho até tarde trabalhando. Se alguém precisava ficar além do horário, um ou dois ficavam fazendo companhia. Nosso chefe, um querido, se recusava a ir embora antes dos outros servidores. Trabalho sempre em equipe e com união e empatia!

31 de dezembro na DAEx!

A rotina era pesada, mas as pessoas ajudavam a ser mais alegre. O trabalho chegava em toneladas, mas me ensinou muito e abriu todas as portas para mim. Eu só tenho a agradecer por ter decidido mudar de divisão e encarar a administração na SERE. E, sim, quando eu tiver que voltar ao Brasil, gostaria de trabalhar na DAEx de novo, relembrar os velhos tempos e continuar fazendo um trabalho útil e importante para o MRE inteiro!

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